Entrevista com Antônio Nóvoa
O professor pesquisador e reflexivo
O paradigma do professor
reflexivo, isto é, do professor que reflete sobre a sua prática, que pensa, que
elabora em cima dessa prática, é o paradigma hoje em dia dominante na área de
formação de professores. Por vezes é um paradigma um bocadinho retórico e eu,
um pouco também, em jeito de brincadeira, mais de uma vez já disse que o que me
importa mais é saber como é que os professores refletiam antes que os
universitários tivessem decidido que eles deveriam ser professores reflexivos.
Identificar essas práticas de reflexão – que sempre existiram na profissão
docente, é impossível alguém imaginar uma profissão docente em que essas
práticas reflexivas não existissem – tentar identificá-las e construir as
condições para que elas possam se desenvolver.

Salto:
Professor, o que é ser professor hoje? Ser professor atualmente é mais complexo
do que foi no passado?
O professor pesquisador e reflexivo
O paradigma do professor
reflexivo, isto é, do professor que reflete sobre a sua prática, que pensa, que
elabora em cima dessa prática, é o paradigma hoje em dia dominante na área de
formação de professores. Por vezes é um paradigma um bocadinho retórico e eu,
um pouco também, em jeito de brincadeira, mais de uma vez já disse que o que me
importa mais é saber como é que os professores refletiam antes que os
universitários tivessem decidido que eles deveriam ser professores reflexivos.
Identificar essas práticas de reflexão – que sempre existiram na profissão
docente, é impossível alguém imaginar uma profissão docente em que essas
práticas reflexivas não existissem – tentar identificá-las e construir as
condições para que elas possam se desenvolver.
Nóvoa: É difícil dizer se ser professor, na
atualidade, é mais complexo do que foi no passado, porque a profissão docente
sempre foi de grande complexidade. Hoje, os professores têm que lidar não só
com alguns saberes, como era no passado, mas também com a tecnologia e com a
complexidade social, o que não existia
no passado. Isto é, quando todos os alunos vão para a escola, de todos os
grupos sociais, dos mais pobres aos mais ricos, de todas as raças e todas as
etnias, quando toda essa gente está dentro da escola e quando se consegue
cumprir, de algum modo, esse desígnio histórico da escola para todos, ao mesmo
tempo, também, a escola atinge uma enorme complexidade que não existia no
passado. Hoje em dia é, certamente, mais complexo e mais difícil ser professor
do que era há 50 anos, do que era há 60 anos ou há 70 anos. Esta complexidade
acentua-se, ainda, pelo fato de a própria sociedade ter, por vezes, dificuldade em saber para que ela quer
a escola. A escola foi um fator de produção de uma cidadania nacional, foi um
fator de promoção social durante muito tempo e agora deixou de ser. E a própria
sociedade tem, por vezes, dificuldade em ter uma clareza, uma coerência sobre
quais devem ser os objetivos da escola. E essa incerteza, muitas vezes,
transforma o professor num profissional que vive numa situação amargurada, que vive numa situação difícil
e complicada pela complexidade do seutrabalho, que é maior do que no passado. Mas
isso acontece, também, por essa incerteza de fins e de objetivos que existe
hoje em dia na sociedade.
Nóvoa: É difícil dizer se ser professor, na
atualidade, é mais complexo do que foi no passado, porque a profissão docente
sempre foi de grande complexidade. Hoje, os professores têm que lidar não só
com alguns saberes, como era no passado, mas também com a tecnologia e com a
complexidade social, o que não existia
no passado. Isto é, quando todos os alunos vão para a escola, de todos os
grupos sociais, dos mais pobres aos mais ricos, de todas as raças e todas as
etnias, quando toda essa gente está dentro da escola e quando se consegue
cumprir, de algum modo, esse desígnio histórico da escola para todos, ao mesmo
tempo, também, a escola atinge uma enorme complexidade que não existia no
passado. Hoje em dia é, certamente, mais complexo e mais difícil ser professor
do que era há 50 anos, do que era há 60 anos ou há 70 anos. Esta complexidade
acentua-se, ainda, pelo fato de a própria sociedade ter, por vezes, dificuldade em saber para que ela quer
a escola. A escola foi um fator de produção de uma cidadania nacional, foi um
fator de promoção social durante muito tempo e agora deixou de ser. E a própria
sociedade tem, por vezes, dificuldade em ter uma clareza, uma coerência sobre
quais devem ser os objetivos da escola. E essa incerteza, muitas vezes,
transforma o professor num profissional que vive numa situação amargurada, que vive numa situação difícil
e complicada pela complexidade do seutrabalho, que é maior do que no passado. Mas
isso acontece, também, por essa incerteza de fins e de objetivos que existe
hoje em dia na sociedade.
Salto: Como o senhor entende a formação continuada de professores? Qual
o papel da escola nessa formação?
Nóvoa – Durante muito tempo, quando nós
falávamos em formação de professores, falávamos essencialmente da formação
inicial do professor. Essa era a referência principal: preparavam-se os
professores que, depois, iam durante 30, 40 anos exercer essa profissão. Hoje
em dia, é impensável imaginar esta situação. Isto é, a formação de professores
é algo, como eu costumo dizer, que se estabelece num continuum. Que começa nas escolas de formação inicial, que continua
nos primeiros anos de exercício profissional. Os primeiros anos do professor –
que, a meu ver, são absolutamente decisivos para o futuro de cada um dos
professores e para a sua integração harmoniosa na profissão – continuam ao
longo de toda a vida profissional, através de práticas de formação continuada.
Estas práticas de formação continuada devem ter como pólo de referência as
escolas. São as escolas e os professores organizados nas suas escolas que podem
decidir quais são os melhores meios, os melhores métodos e as melhores formas
de assegurar esta formação continuada. Com isto, eu não quero dizer que não
seja muito importante o trabalho de especialistas, o trabalho de universitários
nessa colaboração. Mas a lógica da formação continuada deve ser centrada nas
escolas e deve estar centrada numa organização dos próprios professores.
Nóvoa – Durante muito tempo, quando nós
falávamos em formação de professores, falávamos essencialmente da formação
inicial do professor. Essa era a referência principal: preparavam-se os
professores que, depois, iam durante 30, 40 anos exercer essa profissão. Hoje
em dia, é impensável imaginar esta situação. Isto é, a formação de professores
é algo, como eu costumo dizer, que se estabelece num continuum. Que começa nas escolas de formação inicial, que continua
nos primeiros anos de exercício profissional. Os primeiros anos do professor –
que, a meu ver, são absolutamente decisivos para o futuro de cada um dos
professores e para a sua integração harmoniosa na profissão – continuam ao
longo de toda a vida profissional, através de práticas de formação continuada.
Estas práticas de formação continuada devem ter como pólo de referência as
escolas. São as escolas e os professores organizados nas suas escolas que podem
decidir quais são os melhores meios, os melhores métodos e as melhores formas
de assegurar esta formação continuada. Com isto, eu não quero dizer que não
seja muito importante o trabalho de especialistas, o trabalho de universitários
nessa colaboração. Mas a lógica da formação continuada deve ser centrada nas
escolas e deve estar centrada numa organização dos próprios professores.
Salto:
Que competências são necessárias para a prática do professor?
Nóvoa – Provavelmente na literatura, nos
textos, nas reflexões que têm sido feitas ao longo dos últimos anos, essa tem
sido a pergunta mais freqüentemente posta e há uma imensa lista competências.
Estou a me lembrar que ainda há 3 ou 4 dias estive a ver com um colega meu
estrangeiro, justamente, uma lista de 10 competências para uma profissão.
Podíamos listar aqui um conjunto enorme de competências do ponto de vista da
ação profissional dos professores.
Resumindo, eu tenderia a valorizar duas
competências: a primeira é uma competência de organização. Isto é, o professor
não é, hoje em dia, um mero transmissor de conhecimento, mas também não é
apenas uma pessoa que trabalha no interior de uma sala de aula. O professor é
um organizador de aprendizagens, de aprendizagens via os novos meios
informáticos, por via dessas novas realidades virtuais. Organizador do ponto de
vista da organização da escola, do ponto de vista de uma organização mais
ampla, que é a organização da turma ou da sala de aula. Há aqui, portanto, uma
dimensão da organização das aprendizagens, do que eu designo, a organização do
trabalho escolar e esta organização do trabalho escolar é mais do que o simples
trabalho pedagógico, é mais do que o simples trabalho do ensino, é qualquer
coisa que vai além destas dimensões, e estas competências de organização são
absolutamente essenciais para um professor.
Há um segundo nível de competências que, a meu
ver, são muito importantes também, que são as competências relacionadas com a
compreensão do conhecimento. Há uma velha brincadeira, que é uma brincadeira
que já tem quase um século, que parece que terá sido dita, inicialmente, por
Bernard Shaw, mas há controvérsias sobre isso, que dizia que: “quem sabe faz,
quem não sabe ensina”.
Hoje em dia esta brincadeira podia ser
substituída por uma outra: “quem compreende o conhecimento”. Não basta deter o
conhecimento para o saber transmitir a alguém, é preciso compreender o
conhecimento, ser capaz de o reorganizar, ser capaz de o reelaborar e de
transpô-lo em situação didática em sala de aula. Esta compreensão do
conhecimento é, absolutamente, essencial nas competências práticas dos
professores. Eu tenderia, portanto, a acentuar esses dois planos: o plano do
professor como um organizador do trabalho escolar, nas suas diversas dimensões
e o professor como alguém que compreende, que detém e compreende um determinado
conhecimento e é capaz de o reelaborar no sentido da sua transposição didática,
como agora se diz, no sentido da sua capacidade de ensinar a um grupo de
alunos.
Nóvoa – Provavelmente na literatura, nos
textos, nas reflexões que têm sido feitas ao longo dos últimos anos, essa tem
sido a pergunta mais freqüentemente posta e há uma imensa lista competências.
Estou a me lembrar que ainda há 3 ou 4 dias estive a ver com um colega meu
estrangeiro, justamente, uma lista de 10 competências para uma profissão.
Podíamos listar aqui um conjunto enorme de competências do ponto de vista da
ação profissional dos professores.
Resumindo, eu tenderia a valorizar duas
competências: a primeira é uma competência de organização. Isto é, o professor
não é, hoje em dia, um mero transmissor de conhecimento, mas também não é
apenas uma pessoa que trabalha no interior de uma sala de aula. O professor é
um organizador de aprendizagens, de aprendizagens via os novos meios
informáticos, por via dessas novas realidades virtuais. Organizador do ponto de
vista da organização da escola, do ponto de vista de uma organização mais
ampla, que é a organização da turma ou da sala de aula. Há aqui, portanto, uma
dimensão da organização das aprendizagens, do que eu designo, a organização do
trabalho escolar e esta organização do trabalho escolar é mais do que o simples
trabalho pedagógico, é mais do que o simples trabalho do ensino, é qualquer
coisa que vai além destas dimensões, e estas competências de organização são
absolutamente essenciais para um professor.
Há um segundo nível de competências que, a meu
ver, são muito importantes também, que são as competências relacionadas com a
compreensão do conhecimento. Há uma velha brincadeira, que é uma brincadeira
que já tem quase um século, que parece que terá sido dita, inicialmente, por
Bernard Shaw, mas há controvérsias sobre isso, que dizia que: “quem sabe faz,
quem não sabe ensina”.
Hoje em dia esta brincadeira podia ser
substituída por uma outra: “quem compreende o conhecimento”. Não basta deter o
conhecimento para o saber transmitir a alguém, é preciso compreender o
conhecimento, ser capaz de o reorganizar, ser capaz de o reelaborar e de
transpô-lo em situação didática em sala de aula. Esta compreensão do
conhecimento é, absolutamente, essencial nas competências práticas dos
professores. Eu tenderia, portanto, a acentuar esses dois planos: o plano do
professor como um organizador do trabalho escolar, nas suas diversas dimensões
e o professor como alguém que compreende, que detém e compreende um determinado
conhecimento e é capaz de o reelaborar no sentido da sua transposição didática,
como agora se diz, no sentido da sua capacidade de ensinar a um grupo de
alunos.
Salto: O que é ser professor pesquisador e reflexivo? E, essas
capacidades são inerentes à profissão do docente?
Nóvoa – O paradigma do professor reflexivo,
isto é, do professor que reflete sobre a sua prática, que pensa, que elabora em
cima dessa prática é o paradigma hoje em dia dominante na área de formação de
professores. Por vezes é um paradigma um bocadinho retórico e eu, um pouco
também, em jeito de brincadeira, mais de uma vez já disse que o que me importa
mais é saber como é que os professores refletiam antes que os universitários
tivessem decidido que eles deveriam ser professores reflexivos. Identificar
essas práticas de reflexão – que sempre existiram na profissão docente, é
impossível alguém imaginar uma profissão docente em que essas práticas
reflexivas não existissem – tentar identificá-las e construir as condições para
que elas possam se desenvolver.
Eu diria que elas não são inerentes à profissão
docente, no sentido de serem naturais, mas que elas são inerentes, no sentido
em que elas são essenciais para a profissão. E, portanto, tem que se criar um
conjunto de condições, um conjunto de regras, um conjunto de lógicas de
trabalho e, em particular, e eu insisto neste ponto, criar lógicas de trabalho
coletivos dentro das escolas, a partir das quais – através da reflexão, através
da troca de experiências, através da partilha – seja possível dar origem a uma
atitude reflexiva da parte dos professores. Eu disse e julgo que vale a pena
insistir nesse ponto.
A experiência é muito importante, mas a
experiência de cada um só se transforma em conhecimento através desta análise
sistemática das práticas. Uma análise que é análise individual, mas que é
também coletiva, ou seja, feita com os colegas, nas escolas e em situações de
formação.
Nóvoa – O paradigma do professor reflexivo,
isto é, do professor que reflete sobre a sua prática, que pensa, que elabora em
cima dessa prática é o paradigma hoje em dia dominante na área de formação de
professores. Por vezes é um paradigma um bocadinho retórico e eu, um pouco
também, em jeito de brincadeira, mais de uma vez já disse que o que me importa
mais é saber como é que os professores refletiam antes que os universitários
tivessem decidido que eles deveriam ser professores reflexivos. Identificar
essas práticas de reflexão – que sempre existiram na profissão docente, é
impossível alguém imaginar uma profissão docente em que essas práticas
reflexivas não existissem – tentar identificá-las e construir as condições para
que elas possam se desenvolver.
Eu diria que elas não são inerentes à profissão
docente, no sentido de serem naturais, mas que elas são inerentes, no sentido
em que elas são essenciais para a profissão. E, portanto, tem que se criar um
conjunto de condições, um conjunto de regras, um conjunto de lógicas de
trabalho e, em particular, e eu insisto neste ponto, criar lógicas de trabalho
coletivos dentro das escolas, a partir das quais – através da reflexão, através
da troca de experiências, através da partilha – seja possível dar origem a uma
atitude reflexiva da parte dos professores. Eu disse e julgo que vale a pena
insistir nesse ponto.
A experiência é muito importante, mas a
experiência de cada um só se transforma em conhecimento através desta análise
sistemática das práticas. Uma análise que é análise individual, mas que é
também coletiva, ou seja, feita com os colegas, nas escolas e em situações de
formação.
Salto: E o professor pesquisador?
Nóvoa – O professor pesquisador e o professor
reflexivo, no fundo, correspondem a correntes diferentes para dizer a mesma
coisa. São nomes distintos, maneiras diferentes dos teóricos da literatura
pedagógica
abordarem uma mesma realidade. A realidade é
que o professor pesquisador é aquele que pesquisa ou que reflete sobre a sua
prática. Portanto, aqui estamos dentro do paradigma do professor reflexivo. É
evidente que podemos encontrar dezenas de textos para explicar a diferença
entre esses conceitos, mas creio que, no fundo, no fundo, eles fazem parte de
um mesmo movimento de preocupação com um professor que é um professor
indagador, que é um professor que assume a sua própria realidade escolar como
um objeto de pesquisa, como objeto de reflexão, com objeto de análise. Mas,
insisto neste ponto, a experiência por si só não é formadora. John Dewey,
pedagogo americano e sociólogo do princípio do século, dizia: “quando se afirma
que o professor tem 10 anos de experiência, dá para dizer que ele tem 10 anos
de experiência ou que ele tem um ano de experiência repetido 10 vezes”. E, na
verdade, há muitas vezes esta idéia. Experiência, por si só, pode ser uma mera
repetição, uma mera rotina, não é ela que é formadora. Formadora é a reflexão sobre
essa experiência, ou a pesquisa
sobre essa experiência.
Nóvoa – O professor pesquisador e o professor
reflexivo, no fundo, correspondem a correntes diferentes para dizer a mesma
coisa. São nomes distintos, maneiras diferentes dos teóricos da literatura
pedagógica
abordarem uma mesma realidade. A realidade é
que o professor pesquisador é aquele que pesquisa ou que reflete sobre a sua
prática. Portanto, aqui estamos dentro do paradigma do professor reflexivo. É
evidente que podemos encontrar dezenas de textos para explicar a diferença
entre esses conceitos, mas creio que, no fundo, no fundo, eles fazem parte de
um mesmo movimento de preocupação com um professor que é um professor
indagador, que é um professor que assume a sua própria realidade escolar como
um objeto de pesquisa, como objeto de reflexão, com objeto de análise. Mas,
insisto neste ponto, a experiência por si só não é formadora. John Dewey,
pedagogo americano e sociólogo do princípio do século, dizia: “quando se afirma
que o professor tem 10 anos de experiência, dá para dizer que ele tem 10 anos
de experiência ou que ele tem um ano de experiência repetido 10 vezes”. E, na
verdade, há muitas vezes esta idéia. Experiência, por si só, pode ser uma mera
repetição, uma mera rotina, não é ela que é formadora. Formadora é a reflexão sobre
essa experiência, ou a pesquisa
sobre essa experiência.
Salto: A sociedade espera muito dos professores. Espera que eles
gerenciem o seu percurso profissional, tematizem a própria prática, além de
exercer sua prática pedagógica em sala de aula. Qual a contrapartida que o
sistema deve oferecer aos professores para que isso aconteça?
Nóvoa – Certamente, nas entrelinhas da sua
pergunta, há essa dimensão. Há hoje um excesso de missões dos professores,
pede-se demais aos professores, pede-se demais as escolas.
As escolas, talvez, resumindo numa frase (...),
as escolas valem o que vale a sociedade. Não podemos imaginar escolas
extraordinárias, espantosas, onde tudo funciona bem numa sociedade onde nada
funciona. Acontece que, por uma espécie de um paradoxo, as coisas que não
podemos assegurar que existam na sociedade, nós temos tendência a projetá-las
para dentro da escola e a sobrecarregar os professores com um excesso de
missões. Os pais não são autoritários, ou não conseguem assegurar a autoridade,
pois se pede ainda mais autoridade para a escola. Os pais não conseguem
assegurar a disciplina, pede-se ainda mais disciplina a escola. Os pais não
conseguem que os filhos leiam em casa, pede-se a escola que os filhos aprendam
a ler. É legítimo eles pedirem sobre a escola, a escola está lá para cumprir
uma determinada missão, mas não é legítimo que sejam uma espécie de vasos
comunicantes ao contrário. Que cada vez que a sociedade tem menos capacidade
para fazer certas coisas, mais sobem as exigências sobre a escola.
E isto é um paradoxo absolutamente intolerável
e tem criado para os professores uma situação insustentável do ponto de vista
profissional, submetendo-os a uma crítica pública, submetendo-os a uma
violência simbólica nos jornais, na sociedade, etc. o que é absolutamente
intolerável. Eu creio que os professores podem e devem exigir duas coisas
absolutamente essenciais que são:
Uma, é calma e tranqüilidade
para o exercício do seu trabalho, eles precisam estar num ambiente, eles
precisam estar rodeados de um ambiente social, precisam estar rodeados de um
ambiente comunitário que lhes permita essa calma e essa tranqüilidade para o
seu trabalho. Quer dizer, não é possível trabalhar pedagogicamente no meio do ruído, no meio do barulho, no meio da crítica, no meio da insinuação. É absolutamente impossível esse tipo de trabalho. As pessoas têm que assegurar essa calma e essa tranqüilidade.
E, por outro lado, é essencial
ter condições de dignidade profissional. E esta dignidade profissional passa
certamente por questões materiais, por questões do salário, passa também por
boas questões de formação, e passa por questões de boas carreiras
profissionais. Quer dizer, não é possível imaginar que os professores tenham
condições para responder a este aumento absolutamente imensurável de missões,
de exigências no meio de uma crítica feroz, no meio de situações intoleráveis,
de acusação aos professores e às escolas.
Eu creio que há, para além dos aspectos sociais
de que eu falei a pouco – e que são aspectos extremamente importantes, porque
no passado os professores não tiveram, por exemplo, os professores nunca
tiveram situações materiais e econômicas muito boas, mas tinham prestígio e uma
dignidade social que, em grande parte completavam algumas dessas deficiências –
para além desses aspectos sociais de que eu falei a pouco e que são essenciais
para o professor no novo milênio, neste milênio que estamos, eu creio que
pensando internamente a profissão, há dois aspectos que me parecem essenciais.
O primeiro é que os professores se organizem coletivamente – e esta organização
coletiva não passa apenas, eu insisto bem, apenas pelas tradicionais práticas
associativas e sindicais – passa também por novos modelos de organização, como
comunidade profissional, como coletivo docente, dentro das escolas, por grupos
disciplinares e conseguirem deste modo exercer um papel com profissão, que é
mais ampla do que o papel que tem exercido até agora. As questões dos
professorado enquanto coletivo parecem-me essenciais. Sem desvalorizar as
questões sindicais tradicionais, ou associativas, creio que é preciso ir mais
longe nesta organização coletiva do professorado.
O segundo ponto – e que tem muito a ver também
com formação de professores – passa pelo que eu designo como conhecimento
profissional. Isto é, há certamente um conhecimento disciplinar que pertence
aos cientistas, que pertence às pessoas da história, das ciências, etc., e que
os professores devem de ter. Há certamente um conhecimento pedagógico que
pertence, às vezes, aos pedagogos, às pessoas da área da educação que os
professores devem de ter também. Mas, além disso há um conhecimento
profissional que não é nem um conhecimento científico, nem um conhecimento
pedagógico, que é um conhecimento feito na prática, que é um conhecimento feito
na experiência, como dizia há pouco, e na reflexão sobre essa experiência.
A valorização desse conhecimento profissional,
a meu ver, é essencial para os professores neste novo milênio. Creio, portanto,
que minha resposta passaria por estas duas questões: a organização como
comunidade profissional e a organização e sistematização de um conhecimento
profissional específico dos professores.
Nóvoa – Certamente, nas entrelinhas da sua
pergunta, há essa dimensão. Há hoje um excesso de missões dos professores,
pede-se demais aos professores, pede-se demais as escolas.
As escolas, talvez, resumindo numa frase (...),
as escolas valem o que vale a sociedade. Não podemos imaginar escolas
extraordinárias, espantosas, onde tudo funciona bem numa sociedade onde nada
funciona. Acontece que, por uma espécie de um paradoxo, as coisas que não
podemos assegurar que existam na sociedade, nós temos tendência a projetá-las
para dentro da escola e a sobrecarregar os professores com um excesso de
missões. Os pais não são autoritários, ou não conseguem assegurar a autoridade,
pois se pede ainda mais autoridade para a escola. Os pais não conseguem
assegurar a disciplina, pede-se ainda mais disciplina a escola. Os pais não
conseguem que os filhos leiam em casa, pede-se a escola que os filhos aprendam
a ler. É legítimo eles pedirem sobre a escola, a escola está lá para cumprir
uma determinada missão, mas não é legítimo que sejam uma espécie de vasos
comunicantes ao contrário. Que cada vez que a sociedade tem menos capacidade
para fazer certas coisas, mais sobem as exigências sobre a escola.
E isto é um paradoxo absolutamente intolerável
e tem criado para os professores uma situação insustentável do ponto de vista
profissional, submetendo-os a uma crítica pública, submetendo-os a uma
violência simbólica nos jornais, na sociedade, etc. o que é absolutamente
intolerável. Eu creio que os professores podem e devem exigir duas coisas
absolutamente essenciais que são:
Uma, é calma e tranqüilidade
para o exercício do seu trabalho, eles precisam estar num ambiente, eles
precisam estar rodeados de um ambiente social, precisam estar rodeados de um
ambiente comunitário que lhes permita essa calma e essa tranqüilidade para o
seu trabalho. Quer dizer, não é possível trabalhar pedagogicamente no meio do ruído, no meio do barulho, no meio da crítica, no meio da insinuação. É absolutamente impossível esse tipo de trabalho. As pessoas têm que assegurar essa calma e essa tranqüilidade.
E, por outro lado, é essencial
ter condições de dignidade profissional. E esta dignidade profissional passa
certamente por questões materiais, por questões do salário, passa também por
boas questões de formação, e passa por questões de boas carreiras
profissionais. Quer dizer, não é possível imaginar que os professores tenham
condições para responder a este aumento absolutamente imensurável de missões,
de exigências no meio de uma crítica feroz, no meio de situações intoleráveis,
de acusação aos professores e às escolas.
Eu creio que há, para além dos aspectos sociais
de que eu falei a pouco – e que são aspectos extremamente importantes, porque
no passado os professores não tiveram, por exemplo, os professores nunca
tiveram situações materiais e econômicas muito boas, mas tinham prestígio e uma
dignidade social que, em grande parte completavam algumas dessas deficiências –
para além desses aspectos sociais de que eu falei a pouco e que são essenciais
para o professor no novo milênio, neste milênio que estamos, eu creio que
pensando internamente a profissão, há dois aspectos que me parecem essenciais.
O primeiro é que os professores se organizem coletivamente – e esta organização
coletiva não passa apenas, eu insisto bem, apenas pelas tradicionais práticas
associativas e sindicais – passa também por novos modelos de organização, como
comunidade profissional, como coletivo docente, dentro das escolas, por grupos
disciplinares e conseguirem deste modo exercer um papel com profissão, que é
mais ampla do que o papel que tem exercido até agora. As questões dos
professorado enquanto coletivo parecem-me essenciais. Sem desvalorizar as
questões sindicais tradicionais, ou associativas, creio que é preciso ir mais
longe nesta organização coletiva do professorado.
O segundo ponto – e que tem muito a ver também
com formação de professores – passa pelo que eu designo como conhecimento
profissional. Isto é, há certamente um conhecimento disciplinar que pertence
aos cientistas, que pertence às pessoas da história, das ciências, etc., e que
os professores devem de ter. Há certamente um conhecimento pedagógico que
pertence, às vezes, aos pedagogos, às pessoas da área da educação que os
professores devem de ter também. Mas, além disso há um conhecimento
profissional que não é nem um conhecimento científico, nem um conhecimento
pedagógico, que é um conhecimento feito na prática, que é um conhecimento feito
na experiência, como dizia há pouco, e na reflexão sobre essa experiência.
A valorização desse conhecimento profissional,
a meu ver, é essencial para os professores neste novo milênio. Creio, portanto,
que minha resposta passaria por estas duas questões: a organização como
comunidade profissional e a organização e sistematização de um conhecimento
profissional específico dos professores.









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